Arquitetas e Arquiteturas na América Latina do Século XX
O lugar atrás de figuras masculinas não nos cabe mais.

Em um mundo que até aqui foi dominado pela lógica patriarcal em todas as esferas, é muito importante trazer à tona o papel da mulher na sociedade, inclusive na arquitetura. A professora Ana Gabriela Godinho Lima parece também ter pensando assim quando realizou um levantamento da atuação das arquitetas latino-americanas do século XX e copilou sua pesquisa no livro Arquitetas e Arquitetura na América Latina do Século XX. O e-book é organizado em seis capítulos, sendo um dos poucos que se torna referencia quando se trata de pesquisas que abordam as relações de gênero em arquitetura no Brasil.

Antes de entrar no trabalho de Ana Gabriela é preciso entender que nossa sociedade inteira foi essencialmente concebida por homens. As coisas começaram a mudar somente no século vinte, quando as mulheres lutaram e conseguiram acesso à educação e oportunidades similares às masculinas. Inclusive, na arquitetura, por muito tempo apenas os personagens masculinos ganharam destaque e contaram a história. Abordagens diferentes que mostram questões sociais são recentes, dentre elas as questões de gênero.

O primeiro capítulo faz um rápido panorama histórico sobre as mulheres na arquitetura latino-americana, buscando compreender as implicações do que a autora chama de “mecanismos de ocultamento do feminino”, e em seguida o início dos estudos acadêmicos sobre a mulher na arquitetura.  A princípio tratava-se de documentar contribuições silenciosas, depois dissecar sócio e filosoficamente as características desse não reconhecimento em que as arquitetas se viam. Mais e mais conhecimento foi produzido, mais arquitetas saíram do escuro.

A participação das mulheres tem aumentado progressivamente na arquitetura, assim como seu grau de visibilidade e reconhecimento. É necessário, entretanto, que se tenha em vista que o caminho para a conquista de espaço na profissão tem sido difíceis e bastante sinuoso. […] As condições sociais e políticas, extremamente heterogêneas de região para região, também são absolutamente distintas das dos países de primeiro mundo. Se nos baseamos em bibliografas e referenciais estrangeiros é porque ainda carecemos destes materiais produzidos especificamente sobre a nossa realidade.

(LIMA, 2014)

Carmen Portinho, coautora de projetos como Pedregulho e MAM do Rio de Janeiro

Em seguida Ana Gabriela apresenta alguns nomes da arquitetura latino-americana que muitas histórias não contaram em projetos como Casa Ponte e Pedregulho. A autoria e coautoria de mulheres era tão descaradamente menosprezada que até finais dos anos 1990, publicações especializadas de arquitetura chegavam a omitir suas participações, ou ocultavam o fato de serem mulheres usando apenas a inicial do primeiro nome.

O terceiro capítulo é dedicado às mulheres que escreveram sobre arquitetura uma vez que a escrita foi por muito tempo uma atividade mais acessível para mulheres do que projeto ou construção.  Os textos de mulheres foram ganhando cada vez mais impacto ao mesmo tempo que abrangiam assuntos arquitetônicos e urbanísticos cada vez mais variados, envolvendo crítica, história e teoria.

A relação histórica do feminino com a casa tornou mais fácil o acesso de mulheres aos projetos residenciais, além de investimentos financeiros mais acessíveis e a necessidade de menos prestígio se comparado aos projetos arquitetônicos mais icônicos. Aqui na América Latina, já na década de 40, mulheres trabalhavam em parceiras e associações com os arquitetos, em obras que acabaram se tornando referências da arquitetura moderna.

Masp de Lina Bo Bardi, símbolo de São Paulo.

O último capítulo discute as dificuldades e os modos pelos quais, pouco a pouco, as mulheres foram adentrando espaço em projetos que envolviam grandes investimentos financeiros e exigiam prestígio e credibilidade. Na América Latina as mulheres participaram desse tipo de projeto geralmente em equipe ou em duplas enquanto algumas se arriscavam pela carreira solo.

Se hoje cada vez mais estamos aqui estudando e fazendo arquitetura é porque outras vieram antes de nós, abrindo portas através de um longo processo. Ana Gabriela deixa bem claro em seu trabalho que, mesmo que nem sempre vistas, mulheres estiveram lá sim, influenciando a trajetória e a evolução da Arquitetura ao longo do século. Esse lugar, atrás de figuras masculinas, não nos cabe mais. Continuaremos mudamos a história, mas agora com nossos nomes completos e rostos estampados levando os méritos que merecemos.

Para acessar o link completo, é só clicar aqui.

E se quiser ler mais sobre o tema, pode ficar dar uma lida no que a gente falou sobre o projeto Arquitetas Invisíveis.

Como Citar essa Matéria

MARANHÃO, Jade. Arquitetas e Arquiteturas na América Latina do Século XX. Projeto Batente, Fortaleza - CE, 06 de dezembro de 2017. Resenha. Disponível em: <https://projetobatente.com.br/arquitetas-e-arquiteturas-na-america-latina-do-seculo-xx>. Acesso em: [-dia, mês e ano.-]
Jade Maranhão
Arquiteta e Urbanista
Ariana com ascendente em Câncer e cabeça na lua. Casada, feminista, sem filhos. Muito café e chocolate. Nasceu no século passado com a cabeça no século seguinte.
Facilidade para aprender, planejar e gerir projetos, desenhos manuais, softwares de edição de imagens e playlists animadas. Detalha projetos, faz maquetes eletrônicas, tem a criatividade aguçada, sabe fazer o quadradinho. Odeia goiaba.
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