Em uma perspectiva política, o solucionismo tecnológico está intimamente ligado com o neoliberalismo. Se o neoliberalismo é uma ideologia proativa, o solucionismo é reativo.
Nós precisamos estar mais atentos às pessoas do que a arquitetura, elas são peças chaves e temos que observar o comportamento delas dentro dos projetos.
No livro “Crônica de uma morte anunciada”, o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez revela logo na primeira linha o desfecho da história: o personagem principal, Santiago Nasar, vai morrer. Todos os personagens sabiam o que ocorreria, mas nenhum foi capaz de evitar o assassinato.
No último mês, as redes sociais repercutiram o início da demolição da Residência Benedito Macedo. Obra do arquiteto Acácio Gil Borsói e Janete Costa, com jardins do paisagista Burle Marx. Foram muitos os posts e stories carregados de surpresa, decepção, tristeza, revolta, lamentos… Compreensíveis, porém a destruição imóvel era algo absolutamente previsível. A questão era “quando” iria ocorrer.
A demolição foi embargada por falta de alvará para sua realização e uma reunião apressada do órgão estadual de patrimônio acabou por tombar provisoriamente o imóvel, numa forçada tentativa de “salvá-lo”. Um balde d’água. Suficiente para conter o foco inicial, mas não para impedir o incêndio. Mais cedo ou mais tarde o processo de demolição será retomado e no lugar da casa surgirá um novíssimo empreendimento de alto padrão, em sintonia com o que há de mais chique e glamoroso em outra latitudes…
A propósito de outras latitudes, em Roma, o empresário Diego Della Valle – presidente do grupo de sapatos de luxo TOD’s – investiu 25 milhões de euros na restauração do Coliseu. O curioso é que o grupo TOD’s renunciou a colocar seu nome nos andaimes que cobriram o monumento durante os trabalhos de restauro bem como o logotipo da marca nos bilhetes de entrada ao Coliseu. Questionado sobre o porquê dessa política de zero publicidade nesse projeto ele responde:
“Queria dar uma mensagem dentro e fora da Itália […] Para que os italianos se envolvam com coisas importantes. Queremos dizer ao resto de empresários italianos, grandes e pequenos, que é o momento que nós façamos algo por nosso país.”
Diego Della Valle – presidente do grupo de sapatos de luxo TOD’s.
Mas o que tem a ver Garcia Marquez, uma marca de sapatos de luxo e a residência Benedito de Macedo? Por uma parte que a demolição do imóvel parece algo claramente irreversível, portanto – como no livro de Gabo – já sabemos o final da história. Por outro lado, essa história poderia ter um outro desenlace se houvesse em nossa cidade um ecossistema social adequado para que isso ocorresse.
Della Valle não é nenhum um santo, é um empresário e quer lucro. Mas ele parece perceber que algumas coisas, entre elas a cultura do seu lugar, são importantes. Ele sabe que o retorno para sua marca com o fortalecimento da “Marca Itália” é enorme, por isso investe em cultura. Guardadas as devidas proporções (a residência Benedito Macedo não é certamente o Coliseu) é possível tirar algumas lições dessa história:
é preciso acabar com essa disputa maniqueísta que opõe as “pessoas de bem” que desejam salvar o patrimônio e os demônios do mercado que só querem lucro a qualquer custo. Por que não ser parceiros?
é possível obter lucro (e muito) com a exploração de bens patrimoniais precisamente por esse seu caráter de obras singulares.
A educação é fundamental. Sem ela, qualquer esforço de preservação pelo método “goela abaixo” será contraprodutivo. É preciso construir uma cultura arquitetônica e uma cultura patrimonial que nos leve a perceber que valorizar o patrimônio tem a ver com responsabilidade social. Hoje em dia derrubar uma árvore é motivo de comoção e preocupação pelas pessoas e empresas, mas um edifício antigo… quem se importa? Melhor se esbaldar como pinto no lixo pelos boxes do Centro Fashion, alheio à sua arquitetura, do que censurá-lo por ter sido construído sobre os escombros intencionais de uma das fábricas mais importantes do patrimônio industrial de nosso estado.
Mudança de mentalidade é um processo que leva tempo e o patrimônio arquitetônico precisa “para ontem” entrar na dinâmica do desenvolvimento sustentável das cidades, das certificações, dos selos de qualidade das empresas. Enquanto permanecer restrito ao âmbito de arquitetos saudosistas e dos grupos cult-bacaninhas seguiremos com nossas crónicas de outras mortes já anunciadas.
Como Citar essa Matéria
PINTO, Jober. Crônica de uma morte anunciada: residência Benedito Macedo. Projeto Batente, Fortaleza - CE, 1 de julho de 2020. Arquitetura. Disponível em: <https://projetobatente.com.br/cronica-de-uma-morte-anunciada-residencia-benedito-macedo/>. Acesso em: [-dia, mês e ano.-]
Pai da Carolina. Doutor em Arquitetura pela Escuela Ténica Superior de Arquitectura (ETSAM) da Universidad Politecnica de Madrid. Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal do Ceará. Foi Coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria da Cultura de Fortaleza, Ceará. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Projeto Arquitetônico, Patrimônio Cultural e Teoria e Historia da Arquitetura. É membro do International Council on Monuments and Sites (ICOMOS).
Em uma perspectiva política, o solucionismo tecnológico está intimamente ligado com o neoliberalismo. Se o neoliberalismo é uma ideologia proativa, o solucionismo é reativo.
Nós precisamos estar mais atentos às pessoas do que a arquitetura, elas são peças chaves e temos que observar o comportamento delas dentro dos projetos.
A saudade no Brasil tem um quê de resistência. A resistência diante a dureza da vida está na possibilidade de existir na festa e de ser na sua saudade.
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