O que fica pro poente
Na arquitetura, ambientes de curta e longa permanência são conceitos importantes e relativos, principalmente, quando estamos falando dos usuários.

A gente como arquiteto, acaba analisando e investigando as cidades e as edificações sempre sob uma ótica mais sensível e técnica do ponto de vista construtivo. A arquitetura por si só, tem a função de controlar e proteger o ser humano das adversidades ambientais e nós acreditamos que a partir do desenho bem conduzido, somos capazes de transformar a vida das pessoas a partir dos projetos. 

Nós passamos a academia inteira entendendo que, no nosso clima, os ambientes de longa permanência merecem estar em uma posição privilegiada do terreno, ou seja, normalmente os cômodos como salas e quartos são os que recebem mais ventilação e são protegidos ao máximo da insolação. Já os ambientes de curta permanência, são diretamente posicionados em áreas onde recebem pouca ou nenhuma ventilação e normalmente situados a oeste, pro poente. 

Algo que eu sempre percebi e nunca tinha parado para refletir muito bem, é que nos prédios que morei, a maioria dos porteiros que trabalhavam durante o período diurno eram mais estressados e isso fazia com que logo fossem substituídos. Por muito tempo relevei essa questão, mas sempre querendo entender melhor o motivo disso. Certo dia, cheguei em casa mais cedo do trabalho e enquanto passava pela eclusa da guarita, um dos porteiros reclamava para o outro sobre o calor e que estavam precisando proteger a janela virada pro poente. A partir daí, quase sempre que eu saía de casa a pé, ficava observando e via o quanto deveria realmente ser desconfortável e como uma atitude de projeto, desconsiderando o conforto térmico, poderia interferir por vários anos na vida das pessoas que usam no dia a dia. Fiquei examinando essa questão também em outros prédios que já morei e quantas portarias eram voltadas para o poente e sem proteção alguma. Essa reflexão para mim, como arquiteto, me fez tomar ainda mais cuidado para o que colocar pro poente, aquela conversa entre os porteiros me trouxe uma reflexão profunda de como nossos traços dentro de cada projeto podem interferir na rotina, no humor e no trabalho das pessoas a longo prazo. 

Durante a universidade, a gente toma como referência priorizar os ambientes de serviço para o oeste. O que talvez esquecemos é que, ao priorizar essa setorização, estamos apenas desprivilegiando as classes menos favorecidas que usam estes ambientes que chamamos de curta permanência, como de longa permanência e normalmente para o trabalho. Com isso, eu não estou querendo dizer que fomos mal instruídos e nem que a nossa forma de projetar esteja errada, mas a reflexão que eu quero trazer, é que curta e longa permanência são percepções sensivelmente subjetivas e que não se pode setorizar os ambientes de forma isolada. A gente pode sim buscar soluções, de tal forma, que possamos trazer conforto independentemente da orientação solar, através de estratégias como sombreamento, proteção das esquadrias, ventilação cruzada… entre diversas outras, o importante é não abdicar de buscar alternativas e soluções que possam fazer a arquitetura cumprir o seu papel. 

Como Citar essa Matéria
MACEDO, Vinícius. O que fica pro poente. Projeto Batente, Fortaleza - CE, 29 de abril de 2021. Urbanismo. Disponível em: <https://projetobatente.com.br/o-que-fica-pro-poente>. Acesso em: [-dia, mês e ano.-]
Vinícius Macêdo
Arquiteto e Urbanista
Arquiteto e Urbanista, especialista em arquitetura e projeto sustentável. É entusiasta da criatividade, adora arte, design, fotografia, cinema, sempre que tem um tempo livre gosta de pegar um livro na estante e/ou viajar. Hoje está a frente Estúdio Vinicius Macêdo, um escritório que trabalha principalmente com arquitetura e interiores em projetos residenciais, comerciais e institucionais. Acredita que a arquitetura tem o poder de transformar e melhorar a vida das pessoas e é isso que o faz acordar todos os dias de manhã.
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Vinícius Macêdo

Arquiteto e Urbanista, especialista em arquitetura e projeto sustentável. É entusiasta da criatividade, adora arte, design, fotografia, cinema, sempre que tem um tempo livre gosta de pegar um livro na estante e/ou viajar. Hoje está a frente Estúdio Vinicius Macêdo, um escritório que trabalha principalmente com arquitetura e interiores em projetos residenciais, comerciais e institucionais. Acredita que a arquitetura tem o poder de transformar e melhorar a vida das pessoas e é isso que o faz acordar todos os dias de manhã.

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