Vamos colocar uma pedra nesse assunto? Que tal não!
A política pública higienista das nossas cidades e o impacto na sociedade que preferimos não enxergar.

Nesses dias a gestão de Covas, Prefeito de São Paulo, instalou pedras sob o viadutos na Zona Leste e isso vem nos questionar em como estamos cuidando das nossas cidades, e que políticas públicas higienistas são essas?

O Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) realizou uma pesquisa em 2008 e estipulou 31.922 adultos vivendo em situação de rua no Brasil.

Já no último censo de Fortaleza que encontra-se defasado mostra que em 2014 cerca de 1.718 pessoas estão em situação de rua, isso apenas contabilizando pessoas maiores de 18 anos. 

Em Fortaleza contamos apenas com o Centro de Referência Especializado para população em situação de rua (Centro Pop). Atualmente não é difícil encontrar pessoas vivendo em calçadas, praças, rodovias, prédios abandonados ou pernoitando em instituições (abrigos, casas de passagem e de apoio). 

Esses espaços ocupados pelos moradores de ruas não são próprios, devido a maneira que ocupam tais urbanidades, eles acabam desafiando o ‘’ordenamento da cidade’’, pois só restam esses espaços. São lugares transitórios que acabam virando local de moradia e transformando a condição de passagem para algo permanente.

Invertem a lógica de público e privado.

A vivência entre o espaço público e privado se entrelaçam na vida de quem mora na rua, fazendo com que o espaço público se torne seu espaço privativo e sua privacidade se torne algo público, como banhos, limpeza íntima, lavagem de roupas, relações íntimas, etc.

Essas políticas higienistas nas cidades podem apenas esconder problemas e não solucioná-los. Remoções de pessoas em situação de rua, desocupações violentas nunca foram a melhor forma de lidar com esses conflitos nas cidades, conflitos esses que muitas vezes são causados por conta de uma segregação social gritante. 

Falamos muito nesses últimos tempos sobre ‘’Arquitetura Hostil’’ que é quando o espaço é planejado para evitar que os frequentadores se comportem de modo indesejado. E além desse tipo de arquitetura, há também o urbanismo defensivo que vem em forma de condomínios fechados e espaços públicos privatizados e controlados. 

E é o aumento da desigualdade social que incentiva esses tipos de arquitetura de proteção, controle e exclusão. 

Existem diversos mobiliários urbanos e técnicas que fazem parte dessa arquitetura hostil, alguns deles são:

Espinhos de metal, tinta antipichação, bancos com divisórias, estruturas sob viadutos, dentre outros. 

O Historiador Humberto Salustriano, mestre em Planejamento Urbano na UFRJ diz que a ‘’Ideologia da higiene surgiu como justificativa para transformar a área urbana no entorno dos portos, derrubando os antigos cortiços que eram vistos como foco de doenças’’ 

Em São Paulo, a gestão do Covas instalou pedras debaixo do viaduto dizendo que era para evitar o descarte de lixo, mas era para evitar a ocupação dos moradores de rua. 

Pedras sob viaduto – SP Fonte: Blog Reddit

Em Fortaleza, mais evidente no Centro da Cidade, na Praça do Ferreira vários moradores tornaram o espaço em um dormitório a céu aberto. Famílias inteiras estão alojadas ali, incluindo as crianças, expostas a todos os tipos de risco – e sem nenhum atendimento propício a tirá-las dessa situação. 

Moradores de rua – Fortaleza Fonte: blog do eliomar

Fica claro a importância de políticas para essas pessoas, como instalação de banheiros, restaurantes populares, utilização de prédios com obras inacabadas e/ou abandonados tornando-se abrigos e casas de apoio e a política de redução de danos que é defendida e estudada por vários estudiosos do assunto.

Fechar os olhos para esses problemas nas cidades só faz com que cada vez mais gestores procurem formas e ações mal planejadas e de curto prazo. 

‘’Se eu não olhar para esse problema, ele não existe.’’

Ciro Pirondi da Escola da Cidade diz que ‘’ A arquitetura hostil integra o universo de violência e segregação que historicamente faz parte das nossas cidades e elas são desenhadas por quem detém o poder econômico e político.’’

Com tudo isso, constata-se que o higienismo, esse modelo de atuação das gestões e Estado exclui pessoas em situação de rua e isso ainda é um desafio no Brasil. 

Que possamos olhar para esse problema como forma de provocação a termos ações e políticas mais eficazes e justas e não simplesmente pormos uma pedra nesse assunto. 

Como Citar essa Matéria
COSTA, Rafaela. Vamos colocar uma pedra nesse assunto? Que tal não!. Projeto Batente, Fortaleza - CE, 10 de fevereiro de 2021. Urbanismo. Disponível em: <https://projetobatente.com.br/vamos-colocar-uma-pedra-nesse-assunto-que-tal-nao>. Acesso em: [-dia, mês e ano.-]
Rafaela Costa
Arquiteta e Urbanista
Arquiteta e Urbanista pela UNIFOR, com atuação profissional em projetos de edificações e ambientações e recentemente na elaboração do plano de regularização fundiária. Na atuação acadêmica fez parte de grupos de pesquisas como arte urbana em favelas, e o inventário de residências históricas em Fortaleza como documento e memória. É apaixonada pela relação edifício e cidade e como eles podem e devem contribuir para uma cidade mais justa e democrática.

Rafaela Costa

Arquiteta e Urbanista pela UNIFOR, com atuação profissional em projetos de edificações e ambientações e recentemente na elaboração do plano de regularização fundiária. Na atuação acadêmica fez parte de grupos de pesquisas como arte urbana em favelas, e o inventário de residências históricas em Fortaleza como documento e memória. É apaixonada pela relação edifício e cidade e como eles podem e devem contribuir para uma cidade mais justa e democrática.

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